PEDALBOARD DO FABRICIO GAMBOGI (DINGO BELLS) – PEDAL_UPDTR#16

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Entrevista com Fabricio Gambogi e como conhecer as pessoas vai mudando essa nossa vida!

Conhecer pessoas ainda é a parte mais interessante da vida de músico que a gente, mesmo sofrendo, não desiste de tentar viver.

Foi num desses shows por aí que me vi abrindo para o show da Dingo Bells e me lembro que, ao chegar com meus equipos para a passagem de som, lá estavam eles em infindáveis testes de vozes.

Sendo canhoto, a gente desenvolve um radar capaz de identificar de longe outros “seres da mesma espécie”. Foi o que aconteceu quando a passagem de som prosseguiu para os instrumentos de cordas: “oba mais um canhoto estralando as cordas por aqui!”

Fiquei um pouco confuso pelas trocas de instrumento e posição no palco, principalmente no time dos guitarristas, onde o revezamento com o sintetizador é frequente e faz com que muitas vezes eles tenham que trocar de lado no palco, mas QUE PASSAGEM DE SOM!

Show maravilhoso, aproveitei os intervalos para compartilhar o canhotismo com Fabrício e babar um pouco na lindíssima Les Paul. Falamos sobre levar instrumentos reserva e como é difícil, quase sempre, não poder depender de instrumentos de terceiros para o caso de um imprevisto com a bagagem.

O papo engatou lá pelas tantas horas quando a gente tentou sentar para trocar uma ideia e filar um daqueles lanches da madruga que, infelizmente, não estavam mais sendo servidos, resultado: o papo foi na fila mesmo!

Eu sempre comento sobre a alegria que a gente tem como banda de poder tocar e trocar experiências com outros músicos, conhecer pessoas e compartilhar ideias e, para minha felicidade, esse era um dia desses. Em meio ao vai em vem de papos musicais, equipamento e dia-a-dia, lembro que estava em uma fase de pouco retorno para minha banda e poucas datas no horizonte. Acabamos comentando sobre o espaço que as apresentações de covers e tributos as vezes acabam “roubando” da cena de bandas autorais, que para mim ainda são a verdadeira resistência para a cena cultural.

Foi num desses assuntos que o Fabrício soltou bem ao seu jeito: “…cara, se vocês estão precisando tocar covers, talvez o pessoal ainda não tenha entendido o lance de vocês, então, nesses casos, talvez o seu som não seja para essa casa…”, lembro que depois disso várias fichas foram caindo e recuperei um ânimo que há um bom tempo talvez estivesse me faltando.

Vale dizer que sou totalmente contra qualquer tipo de verdade absoluta e, assim como este blog, tudo que eu faço tento fazer de coração, sempre respeitando outras realidades e opiniões, mas nesse momento (naquele papo), eu sei que essa frase me serviu e trago aqui para compartilhar com vocês, como uma forma de conhecer mais um pouco do nosso entrevistado de hoje. Um cara espetacular, muito humano e cheio de energia e alegria no palco, seja na guitarra, nos vocais, teclados ou até mesmo na bateria (veja o vídeo abaixo)

Muito obrigado amigo, por topar participar deste espaço!

 

Fiquem agora com a entrevista do mês:

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entrevista Fabricio Gambogi

 

 

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Você possui uma rotina de estudos com a guitarra ou apenas uma rotina de preparação para shows? Poderia contar um pouco sobre como você se organiza para se manter em dia como músico e principalmente como guitarrista?
Num sentido mais prático, procuro sempre estar em dia, pelo menos mecanicamente, com o instrumento. Se estou há muito tempo sem usar palheta, procuro voltar a palhetar alguns dias antes do próximo show, para recuperar fluidez de movimento. Como os arranjos tem partes super bem definidas para cada um de nós, estar “de bem com a guitarra” tende a ser o meu foco. Agora, num sentido de desenvolvimento pessoal como músico, posso dizer que minha rotina de estudos já foi mais intensa, só que agora ela compete diretamente com meu tempo trabalhando, seja pela Dingo Bells, seja por outros projetos nos quais me envolvo e desenvolvo. Minha solução tem sido achar períodos de alguns dias ou semanas nos quais sei que minha agenda deve permitir um pouco mais de dedicação para me dedicar a questões específicas que vão pintando.

 

Durante o show vi que você também toca partes importantes no teclado e você
anunciou participação como tecladista em show da banda Vanguart, como você divide seu tempo de estudo/dedicação entre a guitarra e os teclados?
De modo geral, uso essa mesma diretriz dos períodos de tempo. Por exemplo, durante um tempo, deixo as unhas cortadas e aproveito para tocar bastante teclado/piano, estudo um pouco de mão esquerda pra ver se aprendo alguma coisa, foco um pouco mais na guitarra. Numa outra época, deixo as unhas compridas e cuidadas, foco bastante no violão, estudo meu repertório autoral, finjo que toco um pouco de guitarra jazz… quer dizer, o que eu estudo tem muito a ver com o que eu pretendo fazer ou estou fazendo, e isso é o que vai pautando o modo como divido meu tempo.

 

O fato de ter outro guitarrista na banda influenciou a forma como você define seus
timbres ou exige alguma adaptação para que funcione legal nos shows?
Talvez tenha sido justamente pelos nossos estilos serem distintos que a coisa toda
funcionou. A Dingo Bells era uma banda que já existia há alguns anos quando comecei
a tocar com eles, então foi realmente o caso de entrar e achar os espaços, seja em
termos de timbragem e efeitos como também na hora de definir os arranjos (o que
tocar, quando, como).

thumbnail_dingo bells - festival psicodália 2017 guto monteiro

Por ser uma banda com muitos backing vocals acontecendo, acredito que instrumentos de cordas e teclados precisem de uma atenção especial para não “brigar” com o arranjo de vozes na mesma frequência, como isso
funciona na Dingo Bells?
Acho que a coisa passa um tanto pelo próprio arranjo, por definir linhas que funcionem
em termos de contraponto. Isso facilita as coisas na hora da mix, pois o que cada
instrumento “fala” tende a “brigar” menos com os outros se os espaços e interações
entre eles já foram previstos na hora do arranjo – e aqui falo de arranjo de modo geral,
vozes, guitarra, baixo, bateria, cordas, metais, seja o que for. É saber o que está sendo
tocado e como esse elemento interage com os outros.

 

Participar com backing vocals em praticamente todas as músicas deve exigir uma
dedicação a mais de todos os integrantes da Dingo Bells. Que dica você daria para
músicos iniciantes que estão com dificuldade para cantar e tocar ao mesmo tempo?
Você tem alguma dica de treino para aperfeiçoar essa prática conjunta?
Olha, mesmo não sendo um cantor, assim, de ofício, acho que eu me arriscaria a dizer pra partir do mais simples sempre. Dividir tarefas – primeiro cantar, depois tocar, daí tocar, depois cantar, fixar as coisas pra depois juntar. Fazer as coisas devagar, estudar com andamento lento, sobe, volta, sobe de novo. Repetir diariamente as coisas. Saber direitinho cada cantinho da música que quer tocar. Descobrir a melodia da canção no instrumento. Aprender a emitir uma nota afinada a partir do instrumento – tem que lembrar de afinar o instrumento também, né, senão não adianta! Rs.

 

Qual sua experiência com pedais e como você escolhe e ordena seus pedais? Tem
alguma dica para quem está começando a montar um pedalboard?
Sempre fui muito intuitivo, além do fato de que pedais são caros e nem sempre dão aquilo que você espera deles. Eu procuro ser prático, buscando mais a possibilidade de transformar meu som e criar contrastes, propor diferentes elementos para o arranjo do que buscando um som específico de um pedal ou outro.

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Fabricio usa um pitch shifter como primeiro pedal de sua cadeia de efeitos

Se pudesse usar somente um pedal em um show, que pedal seria?
Se tivesse que ser apenas um, acho que seria um delay cheio de botões (rs), justamente pela possibilidade de usá-lo como delay, reverb, chorus… o delay é um pedal com muitos recursos.

 

Se você estivesse começando hoje qual seria o primeiro pedal que você iria adquirir?
Qualquer pedal que me propusesse algo em termos de som, que me instigasse a querer ouvir aquele som e ainda coubesse no meu orçamento.

 

Tem algum pedal que você sente falta em seu set ou que você está pensando em
adicionar em seu pedalboard?
Para o show que estamos fazendo com a Dingo Bells, estou com o set bem ajustado. Talvez eu teste tirar o Electric Mistress e voltar com meu bom e velho e humilde chorus da Furmannn, que apesar de modesto tem um som super bonito. O EM tem um grave quando acionado que não tem me agradado muito para as partes nas quais preciso dele.

 

Cite referências de guitarristas ou artistas de bandas independentes que influenciam a escolha do seu timbre de guitarra ou que você admira como guitarrista ou como artista. (Pode citar também guitarristas de bandas famosas que são referencias para você.)
Sou apaixonado por alguns guitarristas de Porto Alegre. Além do Diogo Brochmannn,
meu colega de banda, com quem eu aprendo constantemente, tem o Carlos Ferreira
(Quarto Sensiorial), que é o cara que toca todas as coisas que eu queria tocar, é
incrível, eu assinaria embaixo de cada som que ele faz com a guitarra (rs). Amo o
trabalho do Felipe Zancanaro (Apanhador Só), no instrumento ele é um selvagem de
raro bom gosto. Lorenzo Flach, que é um gurizão talentosíssimo, músico diferenciado e
guitarrista do século XXI MESMO, com outra abordagem em relação ao que eu, véio
que sou, conhecia (rs). Guitarristas com identidade, proposição, coisa linda de se ouvir.
Meu primeiro professor de guitarra me passou algumas coisas que ficaram pra sempre,
tipo King Crimson, Talking Heads, Jimi Hendrix. Destes, o Robert Fripp, do King
Crimson, me influenciou de maneira mais profunda porque estudei por alguns anos um
repertório difundido através do Guitar Craw, escola de violões (aço) internacional que
propõe um padrão de afinação diferente e trabalha uma concepção mecânica
específica para o instrumento. Muito do que estudei de palhetada vem dessa vivência.

Citaria ainda nomes como Radiohead, Bayles, Tame Impala, Unknown Mortal
Orchestra, D’Angelo & The Vanguard, Kurt Rosenwinkel como os trabalhos de guitarra
desse começo de século XXI que mais me interessaram.

 

Sempre gosto de conversar com outros guitarristas canhotos para trocar experiências. Como foi seu desenvolvimento na guitarra? Você teve sempre um instrumento de canhoto? 
Por um lado, é algo de que me arrependo. Sinto muito o fato de não poder dar canja,
pegar instrumento emprestado ou simplesmente não ter determinados instrumentos
disponíveis para mim. Por outro lado, fico na dúvida se, tocando como destro, eu teria me sentido à vontade o suficiente para continuar estudando e me desenvolvendo como instrumentista. Prefiro pensar que não (rs). No fim das contas, é algo que decidi sem saber que estava decidindo.

thumbnail_dingo bells - festival novo caminho salvador 2017 liz santana
Qual é seu ponto de vista com relação a marcas e custo-benefício de pedais?
Essa é uma questão que pode ser complexa, né, porque envolve questões de produção,
mercado, capitalismos e etc. Ao mesmo tempo, estamos falando de ferramentas para produzir arte. Acho que é sempre uma medida muito pessoal que parte de perguntas como “o que eu preciso de fato?”, “o que está ao meu alcance?”, “em que contexto estou pensando usar esse equipamento?”.

Muitas vezes a gente complica por puro fetiche. Outras, a gente é desleixado por preguiça, ou fica aquém do que poderia por falta de recursos mesmo. No meio disso tudo, a dificuldade crescente em conseguir investir no próprio trabalho e os riscos de circular por aí com um equipamento que você passa um tempão economizando pra comprar. Não tem reposta pronta, é uma solução pra cada caso mesmo.

 

Quais os efeitos que você mais usa e como você navega pelas opções durante o show? Você já teve algum problema com a perda de sinal devido ao grande número de efeitos? (cite também se /ver alguma dica para outros guitarristas)

Meu set na Dingo Bells é uma cadeia única, mono, que tem, nessa ordem:
– Pitch shifter
– Overdrive/fuzz (2 canais combináveis)
– Distorção
– Phaser
– Chorus/flanger
– Tremolo
– Delay
– Reverb
– Afinador
Nunca tive perda considerável de sinal, que eu ouvisse o som do amp e achasse que faltou ganho, mas, por outro lado, nunca comparei meu sinal direto da guitarra com o sinal pós-pedaleira.

 

Geralmente você leva seus próprios amplificadores ou trabalha com o que as casas
oferecem? Você tem alguma dica para conseguir o timbre desejado em amplificadores que nem sempre são parecidos com o que você usa?
Em geral, uso amp da casa. Bom, o meu procedimento obviamente tem a ver com a
busca específica do meu som, mas basicamente o que costumo fazer é, durante a
passagem, deixar o amp flat, tocar algumas coisas (sem efeitos) que eu saiba a
sonoridade desejada (uma que outra base, um riff, enfim, mas sempre coisas do show
que vai ser tocado, né!) e ir mexendo no eq e ganho para tentar identificar
aproximadamente onde está o som do amp, como soa cada faixa de frequência. Em
geral, uso bastante médio, gosto que a minha guitarra ocupe esta faixa. Quando o amp
tem recurso “bright” eu tiro um pouco de agudos e ligo o bright apenas pra dar aquele
“high end”, pra guitarra não ficar muito opaca no P.A. Graves eu costumo ficar tocando
as cordas graves abafando (com a mão da palheta mesmo, o famoso palm mute) e ir
subindo o grave até achar o ponto onde eu começo a invadir o espectro do baixo – aí
eu volto um pouquinho e era isso. Procuro não deixar meu som magrinho e estalado
mas ao mesmo tempo tomo cuidado pra não embolar com o baixo – que, no nosso
caso específico, precisa de espaço pra poder groovar e ao mesmo tempo é um som de baixo grande, de banda de rock mesmo (rs), então tem que cuidar com os espaços, não
tem jeito.

 

Confira esta apresentação super bacana da Dingo Bells no estúdio Showlivre:

 

Para o álbum “Todo mundo vai mudar” como foi o seu approach com a guitarra em
relação ao álbum anterior? Cite o que mudou entre um álbum e outro na sua forma de tocar ou colocar a guitarra dentro das músicas.
Acho que o que mudou mesmo foi minha presença, que desta vez foi maior e desde o começo do processo. Minha abordagem costuma ser mais rítmica, procuro me juntar ao hi-hat do Rodrigo, quase como se a gente formasse uma segunda camada de interações rítmicas logo acima do bumbo/baixo. Outra abordagem recorrente é a de criar contraste mudando radicalmente minha fonte sonora. Uso muito reverb, delay e alguma  modificação como chorus, phaser ou distorção para isso.

Um outro recurso que uso é o pitch shifter para quando preciso “aumentar o tamanho do som” da guitarra, como, por exemplo, durante um solo da outra guitarra.

thumbnail_dingo bells - gravação cd 2017
Fabricio ao lado de de Diogo Brochmann, o guitarrista e co-fundador da Dingo Bells

Quais são os planos para 2019? (lançamentos, turnês, shows, etc.).

Estou terminando um single com canções minhas, a ser lançado digitalmente ainda no primeiro semestre. Tenho um disco de dez canções minhas quase pronto, mas esse deve ser lançado no ano que vem. Com a Dingo Bells, temos plano de lançamento do vinil, um single inédito e um clipe recém-gravado. E claro, no que depender de mim tem show toda semana!

Preencha abaixo com o equipamento que você usa:

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Pitch shiwer Electro Harmonix Pitch Fork

Overdrive/fuzz (2 canais combináveis) Wampler Hot Wired (Brent Mason)

Distorção Proco Rat

Phaser Dunlop Mini Phase95

Chorus/flanger Electro Harmonix Electric Mistress

Tremolo Fulltone Supa Trem

Delay Boss DD7 (c/ tap tempo)

Reverb TC Electronics Hall of Fame

Afinador TC Electronics Polytune Mini

 

Guitarra que mais usa:
Até 2018, uma Epiphone Les Paul Custom 2007. Ano passado troquei por uma Gibson Les Paul Custom.

 

Amplificador:
Eu tnha um Hughes&Ketner ATTAX 100 que se entregou. Transformei numa caixa pra
aproveitar o falante, um Celestion que eu sempre achei que falava super bonito, e comprei um cabeçote Eggnator, muito massa pq tem dois sets de válvulas, muita possibilidade de som diferente e tudo lindão. Uso esse set mais para gravações, foi o que usei no TMVM.